Paula Lamares

Choo, o minorca. | Fotografia de (C)JoaoLamares.
Choo, o minor­ca. | Foto­gra­fia de Joa­o­La­ma­resPho­to©.

Pas­sei mui­to tem­po sem escre­ver uma letra sequer, depois de um diag­nos­ti­ca­do mal con­tem­po­râ­neo. Na cor­re­ria entre écrans e micro­fo­nes, auri­cu­la­res e tecla­dos esque­ci-me de res­pi­rar. Um esgo­ta­men­to é isso, esque­cer­mo-nos dos ges­tos mais bási­cos e mor­rer, assim, sem árvo­res nem ven­to, à chu­va mes­mo sem a sen­tir­mos; Sob esse sol anó­di­no das luzes Led.

Por­tan­to, não dis­se nada, não pen­sei nada, não dei­xei nenhum tes­te­mu­nho da pas­sa­gem pelos dias, qua­se não exis­ti duran­te meses por­que eu sem escre­ver é como se não hou­ves­se pro­va de vida em mim.

Sonha­va mui­to, entre-sonos incul­tos, dani­nhos, bes­ti­ais, sem a deli­ca­de­za dos sonhos-dese­jo. Eram só sonhos em bru­to como o gra­ni­to antes da mão ave­lu­da­da da arte. E eu den­tro daque­le mila­gre de exis­tir sem viver, car­re­gan­do a vida às cos­tas como mula tei­mo­sa, a fumar os pás­sa­ros pela jane­la e a dro­gar-me de soli­dão inje­ta­da dire­ta­men­te na veia.

Tinha a alma magrís­si­ma, tal cão vadio pre­so à impos­si­bi­li­da­de de pen­sar, tro­tan­do cami­nhos só pela pro­ba­bi­li­da­de de um osso. Os mem­bros entor­pe­ci­dos de lagar­to qui­e­to em bus­ca de uma pre­sa tar­dia. Só as covas do sor­ri­so a afa­gar memó­ri­as como os velhos sem futu­ro.

E o silên­cio, sen­ta­do no alto das esca­das, como se eu fos­se de novo cri­an­ça à espe­ra que o pai regres­sas­se, depois um afa­go na cabe­ça, em vez de pala­vras:

- Por­tas­te-te bem hoje?

E eu dese­jo­sa de aten­ção, vol­ta­va aos livros como pes­soa gran­de, já com essa resig­na­ção de não ser pos­sí­vel mudar o mun­do, senão escre­ven­do…

Depois fui ama­nhe­cen­do, um fio­zi­nho de mim por ali afo­ra, dias aden­tro de varan­da ao colo. Até que come­cei a pegar aos pou­cos na rédea do enfa­do, a rea­li­da­de menos pega­jo­sa e mor­na, deva­ga­ri­nho a ves­tir-me de mim:

- Sim pai, por­tei-me mui­to bem.

Acen­dia-se as pri­mei­ras luzes na ser­ra.

Se me des­se na vene­ta hoje vol­ta­ria a escre­ver. Des­de então não paro de nas­cer.