A MIÚDA ETERNA

Baía de Cascais, fotografia de ©JoaoLamares
Baía de Cas­cais, foto­gra­fia de ©Joa­o­La­ma­res

Saí do car­ro, afo­gue­a­da por mais uma dis­cus­são inú­til. Todas as dis­cus­sões são impres­tá­veis, dois cére­bros em ócio debi­cam jus­ti­fi­ca­ções para um ato de fé que a razão des­co­nhe­ce. A rea­li­da­de seguia sono­len­ta, enquan­to o meu olhar enfa­da­do per­cor­ria a Baía de Cas­cais. Gai­vo­tas e pom­bos igno­ra­vam-me nos seus voos tran­sa­tlân­ti­cos, alhei­os à angús­tia de mulher, açam­bar­ca­da de pro­ble­mas que só as mulhe­res têm. Por vezes pen­so que este mar quer dizer-me qual­quer coi­sa impor­tan­te que ain­da não sei. Escu­to mas não há pala­vras, só um sus­sur­ro con­tí­nuo que me per­gun­ta: O que é que eu fiz de mim. Por­que não apren­di nada com o tem­po que pas­sou. E qual­quer dia já não há tem­po. Engo­li o pes­si­mis­mo como se engo­le o fas­tio, quan­do se tem fome do impos­sí­vel. Tenho aque­la sen­sa­ção de per­se­gui­ção como se cada pedra, cada grão de areia, cada des­tro­ço aban­do­na­do á bei­ra-mar me cen­su­ras­sem a igno­rân­cia, o não ter fei­to nada con­tra o maras­mo e a apa­tia.

Quan­do o céu ves­te este azul medi­ter­râ­neo lem­bro-me dos olhos da minha avó. Como se ela me olhas­se do alto da sua sabe­do­ria, sem cen­su­ras como os pom­bos e as gai­vo­tas.

- Cres­ce neta, cres­ce que eu não vivo sem­pre. Tens que cres­cer para te tor­na­res uma senho­ra.

Dizia enquan­to me ace­na­va com um chu­pa de cere­ja.

E até hoje, pas­sa­dos tan­tos anos, nun­ca me sen­ti uma senho­ra. Serei velha não tar­da, mas senho­ra nun­ca.

Tenho tan­tas sau­da­des tuas Senho­ra Avó. Enquan­to aque­les olhos pre­ga­dos ao céu sem nuvens me ace­na­vam.

- Se não con­se­gui­res ser uma senho­ra a avó tam­bém não te ralha…

E nun­ca me cen­su­rou.

Está um dia de inver­no mui­to boni­to.” Lem­bro-me das reda­ções da esco­la. Come­ça­vam sem­pre assim, mes­mo que cho­ves­se e dei­xás­se­mos de sen­tir os dedos, con­ge­la­dos por aque­le frio bra­vo de pro­vín­cia. Para onde foi esse meu oti­mis­mo? Para onde fui eu? Por­que dei­xou de me bas­tar pôr os bra­ços hori­zon­tais ao ven­to a fin­gir que voa­va? Ser anjo more­no caí­do e livre.

E eu sor­via a sopa, sen­ta­va-me sobre as per­nas, imi­ta­va arro­tos sono­ros e ria­mos as duas a comer melan­cia à den­ta­da, com o sumo a escor­rer pelos coto­ve­los.

- A avó não te ralha se não con­se­gui­res.

E nun­ca me ralhou.   

Tenho tan­to medo avó. E as gai­vo­tas e os pom­bos de asa sol­ta, com­ple­ta­men­te indi­fe­ren­tes à minha dor. O mar que me con­ti­nu­a­va a mur­mu­rar um reca­do inin­te­li­gí­vel e o dia a per­cor­rer toda a pau­ta de luz. Via-me tão peque­ni­na em cima de uma bici­cle­ta a des­cer a ladei­ra do Liceu.

- Não fui capaz avó. Não me ralhes.

E nun­ca me ralhou. Só o azul puro dos olhos que ago­ra são o céu, ensai­a­va uma rés­tia de lágri­ma que logo o sol se apres­sou a enxu­gar.

- Que uma senho­ra não cho­ra.

E fui tra­ba­lhar. Mais apa­zi­gua­da com as gai­vo­tas e os pom­bos que tro­ça­vam de mim, miú­da ain­da, inca­paz de ser a senho­ra dona Pau­la, de olhos rasos de sal.     

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Paula Lamares

Depois fui amanhecendo, um fiozinho de mim por ali afora, dias adentro de varanda ao colo. Até que comecei a pegar aos poucos na rédea do enfado, a realidade menos pegajosa e morna, devagarinho a vestir-me de mim:... Acendia-se as primeiras luzes na serra. Se me desse na veneta hoje voltaria a escrever. Desde então não paro de nascer.
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