MORRER TAMBÉM CANSA (SOBRETUDO PORQUE MORREMOS AOSPOUQUEXINHOS” )

A mim can­sam-me as con­ver­sas que come­çam por “ dan­tes é que era bom” quan­do as pes­so­as pas­sa­vam fome, anda­vam des­cal­ças e as mais sor­tu­das com­ple­ta­vam a 4ª clas­se. Can­sam-me as opi­niões dema­gó­gi­cas que come­çam por “ Os nos­so filhos é que vão her­dar esta mer­da” enquan­to os entu­pi­mos de comi­da plás­ti­ca, açú­ca­res, fari­nhas trans­gé­ni­cas e anti­bió­ti­cos. Can­sam-me as pes­so­as que pecam “pou­que­xi­nho” e come­tam trans­gres­sõe­zi­nhas, se é para pecar que peque­mos à gran­de. Can­sam-me as notí­ci­as que come­çam e aca­bam com um pes­si­mis­mo enrai­za­do sem expli­ca­ção apa­ren­te, já que vive­mos num país em paz e em que o mais pobre é con­si­de­ra­vel­men­te mais rico que o pobre do Lado B do pla­ne­ta.

Can­sam-me as pes­so­as que cri­ti­cam tudo e todos mas são inca­pa­zes de con­tri­buir para o mun­do com uma ideia peque­ni­na que seja. Can­sam-me os quei­xu­mes que se ouvem da boca de quem não sabe o que é o sofri­men­to. Can­sam-me os desa­ba­fos das mulhe­res a fala­rem mal dos homens e dos homens a coi­si­fi­car as mulhe­res. Can­sam-me as peda­go­gi­as femi­nis­tas e pro- igual­da­de de géne­ro e outros temas da ordem do dia poli­ti­ca­men­te cor­re­tos, quan­do o que o pes­so­al gos­ta de con­su­mir são pro­gra­mas de tele­vi­são com a boa peda­go­gia dos “Bons rabos e boas tetas e machões filhos da mãe”. Can­sam-me que os con­su­mi­do­res des­ses pro­gra­mas sejam os pri­mei­ros a cri­ti­car sen­ten­ças de juí­zes que se basei­am nes­sa mes­ma peda­go­gia.

Can­sam-me os putos hipe­ra­ti­vos que agem como se fos­sem mini CEO de mul­ti­na­ci­o­nais, ali­men­ta­dos a rita­li­na com cho­ca­pic ao peque­no-almo­ço. Can­sam-me os pais que gerem a agen­da dos seus reben­tos como se estes fos­sem mini CEO de mul­ti­na­ci­o­nais por­que se com cin­co anos não apren­de­rem pelo menos cin­co lín­guas, incluin­do Man­da­rim, não vão ter futu­ro nenhum. Can­sam-me os papás e as mamãs que tro­ca­ram o chi­ne­lo pela “Ioga para cri­an­ças” e por “vamos lá con­ver­sar em famí­lia” e assim pro­du­zem cada vez mais seres peque­ni­nos mal-edu­ca­dos e bir­ren­tos que não res­pei­tam os outros e fazem bullying aos pro­fes­so­res. Can­sam-me os pro­fes­so­res que se viti­mi­zam e detes­tam o que fazem quan­do o que fazem é o que eles esco­lhe­ram para fazer. Can­sam-me os “civis” que odei­am os fun­ci­o­ná­ri­os públi­cos por­que estes têm rega­li­as a mais e fama de faze­rem menos quan­do eu sou fun­ci­o­ná­ria públi­ca, tra­ba­lho mui­tas vezes 12 horas por dia e não que­ro horas extra­or­di­ná­ri­as por­que os impos­tos que teria que pagar pelas horas extra me dei­xa­ri­am ain­da com menos orde­na­do. Can­sam-me os fun­ci­o­ná­ri­os públi­cos que dão razão a quem os odeia.

Can­sam-me os polí­ti­cos que dão dinhei­ro a ban­cos mal geri­dos e con­de­co­ram os ges­to­res mili­o­ná­ri­os incom­pe­ten­tes. Can­sam-me os polí­ti­cos que fazem leis que per­mi­tem per­se­guir as finan­ças até ao tuta­no, rumo à insol­vên­cia, de alguém que geriu mal a sua vida ou o seu negó­cio, mui­to devi­do à má con­jun­tu­ra que os polí­ti­cos e os ban­quei­ros aju­da­ram a estra­gar. Can­sam-me os cor­rup­tos, mas, tam­bém as pes­so­as que des­cul­pam a cor­rup­ção com os maus salá­ri­os quan­do quem é cor­rom­pi­do ganha 10X mais que o por­tu­guês médio que paga impos­tos e não pode fugir para offsho­res. Can­sa-me não poder inde­xar o meu salá­rio a uma offsho­re.

Can­sam-me os “trum­pis­tas” que negam o aque­ci­men­to glo­bal, mas, tam­bém me can­sam os que acham que o mun­do vai aca­bar por cau­sa das palhi­nhas do sumo de laran­ja. E que só cal­çam sapa­tos de pele vegan que cus­tam uma for­tu­na e cuja pele arti­fi­ci­al gas­ta na sua pro­du­ção mui­to mais recur­sos natu­rais que a pele das vacas. Can­sa-me que os pro­du­tos ambi­en­tal­men­te sus­ten­tá­veis cus­tem for­tu­nas. Can­sa-me que um aba­ca­te cus­te 2x mais que dois bur­gers com bata­tas fri­tas e que uma pale­te de coca-cola cus­te menos que dois paco­tes de lei­te fres­co.

Can­sam-me as pes­so­as que recla­mam por­que fize­ram um par­que de esta­ci­o­na­men­to a 300 metros do tra­ba­lho (ui que can­sei­ra), mas depois, pas­sam horas no giná­sio a andar de pas­sa­dei­ra. Can­sam-me os habi­tués dos giná­si­os que revi­ram os olhos à minha t‑shirt velha e aos meus ténis de mar­ca bran­ca. Se qui­ses­se mos­trar as últi­mas ten­dên­ci­as não ia suar para um giná­sio, ia à Moda­lis­boa.

Em conclusão

Estou mui­to can­sa­da. Por isto, por aqui­lo e por tudo o que foi inven­ta­do só para me can­sar ain­da mais. Este mun­do é uma can­sei­ra por­que muda mais rápi­do do que o feed do Face­bo­ok. O que é lamen­tá­vel é que o meu can­sa­ço não sir­va abso­lu­ta­men­te para nada. A não ser escre­ver coi­sas que pro­vo­cam um imen­so can­sa­ço a quem as lê. Tal­vez alguém inven­te uma for­ma de ligar o can­sa­ço a um par de pedais que mova uma ven­toi­nha que liga­da a um meca­nis­mo por inven­tar se  con­si­ga pro­du­zir fotos­sín­te­se. E assim trans­for­mar o can­sa­ço exis­ten­ci­al em ener­gia ver­de.

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Paula Lamares

Depois fui amanhecendo, um fiozinho de mim por ali afora, dias adentro de varanda ao colo. Até que comecei a pegar aos poucos na rédea do enfado, a realidade menos pegajosa e morna, devagarinho a vestir-me de mim:... Acendia-se as primeiras luzes na serra. Se me desse na veneta hoje voltaria a escrever. Desde então não paro de nascer.
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