O filho pródigo

- Car­los Antu­nes o que é que estás a fazer filho?

- A ten­tar ler um livro mãe…

- Ai minha Nos­sa Senho­ra, Filho da San­tís­si­ma Trin­da­de, Jesus glo­ri­fi­ca­do e pos­to na Cruz por­que te sacri­fi­cas­te? A LER UM LIVRO? Mas que é isso Senhor, filho meu não…

. Mas, mãe­zi­nha é só um ino­fen­si­vo livro…

- Filho, sabes o sacri­fí­cio que o teu pai fez para pagar a últi­ma ver­são do teu smartpho­ne? Aque­le que veio já com os resu­mos dos clás­si­cos da lite­ra­tu­ra mun­di­al? E os pro­gra­mas de com­pu­ta­dor, Deus meu, res­mas deles e carís­si­mos só por cau­sa da tua aler­gia ao pó?

- Mas, mãe, este livro é novo, não tem pó…

- Todos os livros têm pó Car­los Antu­nes, aque­las hor­ro­ro­sas folhas de papel impreg­na­das de bac­té­ri­as…

- Mama não te apo­quen­tes tan­to, acho os livros tão giros…

  —  Car­li­tos, Car­li­tos… e há a ques­tão dos ócu­los, que ler essas letras peque­ni­nas faz-te mal aos olhos. Lê o resu­mo no tablet, diga-se de pas­sa­gem que cus­tou uma pipa de mas­sa ao teu pai…nem fomos de féri­as!!!

- Mãe, mas eu não gos­to de resu­mos, que­ro ler a his­tó­ria toda…

- Car­los Antu­nes o que é isso!!! Só me dás des­gos­tos! Quem é que no sécu­lo XXI per­de tem­po a ler a palha que os escri­to­res escre­vem? O que inte­res­sa é o resu­mo, puri­fi­ca­do e lim­po das des­cri­ções des­ne­ces­sá­ri­as, das ações ínvi­as, dos delí­ri­os obses­si­vos dos escri­to­res bipo­la­res…. Já nin­guém per­de tem­po com isso filho. Até pode ser con­ta­gi­o­so…

- Mas, mãe eu gos­to e eu pró­prio ado­ro escre­ver em papel…

- O quê Car­los Antó­nio Oli­vei­ra Antu­nes??? Escre­ver… em papel! Estás lou­co filho? Já alguém te viu a pra­ti­ca­res tal ato retró­gra­do e peri­go­so? És algum psi­co­pa­ta filho? Por amor de Deus, Car­los Antu­nes, ao menos que não o faças em públi­co… tenho uma repu­ta­ção a man­ter, olha o nome da nos­sa famí­lia? E se alguém te apa­nha e te tira uma foto­gra­fia e publi­ca no Face­bo­ok… ou no Ins­ta Sto­ri­es? Filho nun­ca mais arran­jas namo­ra­da e olha que o Tin­der pode expul­sar o teu per­fil sem dar expli­ca­ções…

- Mãe não é como se me mas­tur­bas­se no Star­bucks em fren­te de todas a gen­te, até pare­ce…

- Filho antes fos­se… antes te mas­tur­bas­ses em fren­te do teu tio Ambró­sio e da tua tia avó Lily… era cer­ta­men­te menos gra­ve, é o que te digo. Olha o aten­ta­do ao pudor peran­te algu­ma cri­an­ça que te veja a ler um livro ou a escre­vi­nhar um papel qual­quer… que exem­plo estás a dar aos teus irmãos mais novos Car­los Antu­nes… Vir­gem minha acu­di-me e trás a luz a este jovem per­di­do que é meu filho!

- Mas, mãe que exa­ge­ro…

- E‑XA-GE-RO Car­los Antó­nio Oli­vei­ra Antu­nes? Olha o res­pei­to, olha o res­pei­to… ain­da sou tua mãe?

- Des­cul­pa mãe… vá lá que­ro aca­bar o roman­ce… está qua­se e que­ro saber como aca­ba?

- Nem pen­ses Car­los Antu­nes. Fecha já esse antro de fun­gos, esse boca­do de mau cami­nho… os teus avós já saí­ram de San­ta Com­ba Dão há 80 anos. Ago­ra somos uma famí­lia moder­na e res­pei­ta­da… dei­xa­mos para trás esses pro­vin­ci­a­nis­mos do sécu­lo pas­sa­do. EVO­LUÍ­MOS Car­los Antu­nes. Não dei­tes tudo a per­der por cau­sa de pra­ze­res efé­me­ros que nos enver­go­nham a todos.

- Mas, mãe… e se eu qui­ser ser escri­tor…

- Cala-te, cala-te, vá- de-retro-oh-Sata­nás! Um escri­tor não serás! Este meu filho está per­di­do. Estás de cas­ti­go, Car­los Antu­nes. Vai já para a PlayS­ta­ti­on… não sais da cadei­ra sem pas­sar de nível no Tetris… até o teu pri­mo de 3 anos sabe jogar melhor que tu!!! Não enver­go­nha­rás os teus pais… é só o que te digo. Eu devia ter des­con­fi­a­do quan­do te vi a sal­tar à cor­da quan­do tinhas 9 anos em vez de joga­res ao Super Mario. Andas a fal­tar às con­sul­tas da psi­có­lo­ga Car­los Antu­nes?

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Paula Lamares

Depois fui amanhecendo, um fiozinho de mim por ali afora, dias adentro de varanda ao colo. Até que comecei a pegar aos poucos na rédea do enfado, a realidade menos pegajosa e morna, devagarinho a vestir-me de mim:... Acendia-se as primeiras luzes na serra. Se me desse na veneta hoje voltaria a escrever. Desde então não paro de nascer.
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