O Guardador de Sabedorias

Senhor Jesus Maria (Tché, o Labrador) | Fotografia de JoaoLamaresPhoto(C).
Senhor Jesus Maria (Tché, o Labra­dor) | Foto­gra­fia de Joa­o­La­ma­resPho­to©.

Dir-se-ia que ele per­so­ni­fi­ca­va o autên­ti­co pilar essen­ci­al de um mun­do em vias de extin­ção, onde a hon­ra e a vir­tu­de eram mais impor­tan­tes que o “poli­ti­ca­men­te cor­re­to”. Quan­do o lei­te, como ali­men­to indis­cu­tí­vel, pro­vi­nha da vaca e os “sem glú­ten” ain­da não tinham con­quis­ta­do o pala­to do povo.

A sua con­ver­sa total­men­te “démo­dé”, não acu­sa­va, assim, os fil­tros “ins­ta­gra­mi­cos”, pelo que incluía amiú­de os pro­vér­bi­os, *PETA- cen­su­ra­dos,  do tipo “Pegar o toi­ro pelos cor­nos” ou “Matar dois coe­lhos de uma caja­da­da só”. Era cer­to que já nin­guém fala­va assim, não por­que a sabe­do­ria popu­lar esti­ves­se em cau­sa, mas, sim­ples­men­te, por­que a lin­gua­gem meta-moder­na tem que pas­sar pelo pré­vio cri­vo da este­ri­li­za­ção lin­guís­ti­ca pre­si­di­da pelas dife­ren­tes asso­ci­a­ções pro-cau­sa ani­mal, vege­tal e mine­ral, depu­ta­do do PAN incluí­do.

Não é que ele não gos­tas­se de ani­mais e de sala­das bem tem­pe­ra­das — com azei­te e não com óle­os sem pin­go de gor­du­ra. Lá em casa pulu­la­vam uns bons exem­pla­res cabres­tos, galos de pelo na ven­ta e a perua da espo­sa que até se cha­ma­va Rosa como a flor.

Os ani­mais eram esti­ma­dos, as plan­tas eram rega­das com cari­nho e a avó, uma senho­ra cheia de ceri­mó­ni­as e edu­ca­ção, só peca­va por­que comia chou­ri­ço e tou­ci­nho no des­je­jum e des­co­nhe­cia que as semen­tes tinham sido des­ca­ra­da­men­te rou­ba­das aos pás­sa­ros para pas­sa­rem a “top­ping” pre­fe­ri­do de chi­ques estô­ma­gos huma­nos.

Como bom pai de famí­lia que era, depois do tra­ba­lho e antes de casa, pas­sa­va pela tas­ca do Tonho, a beber uma impe­ri­al que lhe abria o ape­ti­te para o últi­mo repas­to do dia. Era lá no café que ele se punha a par das últi­mas. Na sua mai­o­ria notí­ci­as que o dei­xa­vam um boca­do cabis­bai­xo, ao des­co­brir que o seu mun­do, tal como sem­pre o conhe­ceu, está a desa­pa­re­cer mais rapi­da­men­te que os tre­mo­ços do pires do Tonho em hora de pon­ta. Mas, ain­da a cer­ve­ja não tinha des­ci­do um dedo min­di­nho bem medi­do já ele tinha esque­ci­do os Trumps des­ta vida e vol­ta­va a sor­rir, só de pen­sar no refo­ga­di­nho a apu­rar no fogão da Rosi­nha.

Assim, o Senhor Jesus Maria era um exem­plar per­fei­to do homem supe­ri­or, segun­do cri­té­ri­os do sécu­lo pas­sa­do. Modes­to e tra­ba­lha­dor para quem um aper­to de mão era uma pro­mes­sa inque­brá­vel, embo­ra des­co­nhe­ces­se por com­ple­to o manu­se­a­men­to do “Face­bo­ok”. Mais do tem­po do rádio a pilhas do que do “Spo­tify”. Para além dis­so, tinha uma bon­da­de imen­sa e era o úni­co que comia e bebia, ou seja, fala­va “tu-cá-tu-lá” com o sobri­nho lari­las, sem pon­ta de dis­cri­mi­na­ção.

- Então, como vai isso de rapa­ri­gas, eih!

Seguin­do-se uma for­te pal­ma­da nas cos­tas que dei­ta­va abai­xo o rapaz des­pre­ve­ni­do.

- Vai bem tio, vai mui­to bem…

Res­pon­dia o sobri­nho dig­no com um sor­ri­so cúm­pli­ce de homem para homem.

E para a filha que her­da­ra da mãe as coxas de fran­ga e o rabo empi­na­do de moçoi­la bem nutri­da:

- E tu onde vais toda pino­cas?

Enquan­to dese­nha­va um gran­de sor­ri­so man­so de orgu­lho de pai e ela afas­ta­va-se empi­nan­do ain­da mais o rabo de amen­doim gor­do, a can­ta­ro­lar a últi­ma músi­ca de Tony Car­rei­ra.

- Isto das glân­du­las, dá mui­to que falar

Reco­gi­ta­va alto a Rosa sor­rin­do de satis­fa­ção, ao ver-se na filha tal e qual há 40 anos atrás.

- São os genes Rosi­nha, são os genes… não as glân­du­las. Ai mulher que tro­cas tudo.

A satis­fa­ção que lhe dava ver assim os filhos cri­a­dos.

E dei­xou-se ficar assim autis­ta para o estran­gei­ro uni­ver­so que rugia lá fora, pou­co con­vi­da­ti­vo a sair enquan­to com­par­ti­lha­va o sofá com a sua Rosa, fren­te à larei­ra ace­sa. Ou não fos­se o Senhor Jesus Maria, o guar­da­dor das velhas sabe­do­ri­as com açú­car adi­ci­o­na­do, glú­ten e reple­tas de lac­to­se de vacas feli­zes.

- Ò Rosi­nha pas­sa-me aí a minha aguar­den­te espe­ci­al

Come­mo­ran­do como só o fazem os homens gran­des que deram lugar ao Homo Sel­fi­es- esses que habi­tam os mun­di­nhos do tama­nho de écrans, em silen­ci­o­sa comu­ni­ca­ção, tais cape­las peque­ni­nas, onde cada um reza por si, pican­do o qua­dra­di­nho de plás­ti­co, a um deus pró­prio com milhões de segui­do­res.

*PETA — Peo­ple for the Ethi­cal Tre­at­ment of Ani­mals

Seguir

Paula Lamares

Depois fui amanhecendo, um fiozinho de mim por ali afora, dias adentro de varanda ao colo. Até que comecei a pegar aos poucos na rédea do enfado, a realidade menos pegajosa e morna, devagarinho a vestir-me de mim:... Acendia-se as primeiras luzes na serra. Se me desse na veneta hoje voltaria a escrever. Desde então não paro de nascer.
Seguir
Ple­a­se fol­low and like us:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *