Porque é que amo Karl Lagerfeld e fiquei de rastos com a sua morte

Foto­gra­fia Har­per’s Baza­ar

O luxo é com­bi­nar a espon­ta­nei­da­de de uma t‑shirt com um ves­ti­do mui­to dis­pen­di­o­so” dis­se o Kai­ser, como Karl Lager­feld era conhe­ci­do no meio da moda. Esta é, das fra­ses que lhe são atri­buí­das, aque­la com que mais me iden­ti­fi­co.

Não nas­ci par­ti­cu­lar­men­te deten­to­ra de uma bele­za clás­si­ca, em vez dis­so, des­de mui­to cedo, per­ce­bi que era uma miú­da gira ou “cool” como ago­ra se diz. As minhas ami­gas esta­vam sem­pre a per­gun­tar-me onde com­prei esta ou aque­la peça de rou­pa ou um aces­só­rio qual­quer que encon­tra­va nos baús da avó, das tias ou da mãe. Lem­bro que está­va­mos em Por­tu­gal, mais pro­pri­a­men­te numa cida­de do inte­ri­or (Alen­te­jo), na déca­da de 7080. Pelo que não havia lojas de pron­to-a-ves­tir e as pou­cas bou­ti­ques de rou­pa esta­vam lon­ge, mui­to lon­ge da bol­sa de rapa­ri­gas da clas­se média bai­xa.

Não admi­ra que orga­ni­zás­se­mos excur­sões com as pro­fes­so­ras mais fixes da esco­la para vir­mos à capi­tal fazer algu­mas com­pras. Uns meses antes come­ça­va a pou­par o máxi­mo de escu­dos que con­se­guia, mes­mo que isso impli­cas­se dei­xar de fazer lan­ches da manhã e da tar­de e jun­ta­va todo o dinhei­ro que me davam ou que con­se­guia em tro­ca de peque­nos ser­vi­ços às vizi­nhas para ir às com­pras a Lis­boa. Era o tem­po da Casa Afri­ca­na e dos Por­fí­ri­os, o expo­en­te máxi­mo da moda num país ain­da pro­fun­da­men­te mar­ca­do pelo cin­zen­tis­mo da dita­du­ra Sala­za­ris­ta.

Por sor­te a minha mãe sabia cos­tu­rar mui­to bem e eu tinha um par­ti­cu­lar gos­to por inven­tar e mis­tu­rar rou­pas e aces­só­ri­os. Fazia os meus out­fits nas bone­cas Cindy (as anti­gas Bar­bi­es) e depois pedia á minha mãe que copi­as­se para o meu tama­nho. Com doze anos lem­bro-me de ir para a esco­la com umas cal­ças de velu­do doi­ra­das à boca de sino que a minha mãe me fize­ra, apro­vei­tan­do os res­tos de teci­do de um cor­ti­na­do que cos­tu­rou para a patroa. Jun­tei um casa­co de fato de trei­no, um colar com­pri­do de péro­las pre­tas da minha tia Nita e umas socas típi­cas das vari­nas, ofe­re­ci­das pelo meu pai e com­pra­das na Naza­ré. Foi um estron­do e a par­tir daí os rapa­zes come­ça­ram a rodar o dedo indi­ca­dor na tes­ta sem­pre que me viam, sinal de que me con­si­de­ra­vam meio desa­pa­ra­fu­sa­da. Já entre as meni­nas eu era um suces­so e alvo de inve­ja como é pró­prio das mulhe­res des­de ten­ra ida­de.

Foi mais ou menos por essa ida­de que des­co­bri mada­me Coco Cha­nel. Numa das mui­tas revis­tas estran­gei­ras que a minha avó tira­va do lixo da casa onde tra­ba­lha­va para me dar, quan­do des­co­briu que a razão da minha extre­ma magre­za se pren­dia com o fac­to de dei­xar de com­prar comi­da na esco­la para com­prar rou­pa, mas tam­bém revis­tas de moda na pape­la­ria do Sr. Joa­quim.

O esti­lo Cha­nel foi uma pai­xão à pri­mei­ra vis­ta que per­du­ra até hoje. Mada­me Coco mor­reu tinha eu 6 anos, mas, só pas­sa­dos 6 anos vim a des­co­brir a mor­te daque­la que seria a minha men­to­ra e gran­de ins­pi­ra­ção para o res­to da minha vida. No dia em que me con­ta­ram que mada­me Cha­nel já tinha mor­ri­do, aper­ce­bi-me que o seu espí­ri­to geni­al nun­ca mais pode­ria cri­ar uma peça de rou­pa sequer. Fiquei tão tris­te que ain­da me dói só de lem­brar o que sen­ti (não esque­cer que as tele­vi­sões eram raras nos lares por­tu­gue­ses e as notí­ci­as sobre moda em Por­tu­gal não vinham pro­pri­a­men­te nos jor­nais, nem eu con­vi­via com pes­so­as peri­tas no assun­to).

Já em 1983, tinha eu 18 anos e a tra­ba­lhar com a gran­de desig­ner de moda Ana Sala­zar, ouvi pela pri­mei­ra vez falar de Karl Lager­feld. Foi quan­do ele assu­miu a dire­ção artís­ti­ca das cole­ções de alta cos­tu­ra, prêt-à-por­ter e aces­só­ri­os da Casa Cha­nel. Até aí con­ti­nu­a­va a minha vene­ra­ção pela Coco Cha­nel, mas a gran­de Casa pari­si­en­se esta­va qua­se mori­bun­da, pois des­de a mor­te da fun­da­do­ra não tinha sido encon­tra­da uma suces­são à altu­ra. Karl Lager­feld tomou o leme da Casa e as coi­sas come­ça­ram a mudar e mui­to para a minha que­ri­da Cha­nel que res­sus­ci­tou das cin­zas.

Está­va­mos em finais dos anos 80 e a moda em Por­tu­gal ain­da era mui­to inci­pi­en­te e pou­co ino­va­do­ra. O país tinha aca­ba­do de entrar na CEE e na Capi­tal não se pas­sa­va nada. Até que as Mano­bras de Maio acon­te­ce­ram e foram total­men­te dis­rup­ti­vas em rela­ção ao pano­ra­ma da moda por­tu­gue­sa. Eu vivia entre dois mun­dos: O tra­ba­lho com a Ana Sala­zar que foi a desig­ner por­tu­gue­sa que mais rom­peu com os códi­gos de ves­tir da épo­ca e que cri­ou um esti­lo que é atu­al até hoje, qua­ren­ta anos depois, assim como o con­ví­vio com o gru­po que a rode­a­va de artis­tas, rea­li­za­do­res, auto­res e ato­res “mui­to à fren­te”. E, por outro lado, nos antí­po­das, decor­ri­am os meus estu­dos na Facul­da­de de Direi­to da Uni­ver­si­da­de de Lis­boa que era só a uni­ver­si­da­de mais rea­ci­o­ná­ria e con­ser­va­do­ra da altu­ra, con­jun­ta­men­te com a Uni­ver­si­da­de Cató­li­ca Por­tu­gue­sa.

Foi algu­res por essa altu­ra que soli­di­fi­quei aqui­lo a que pom­po­sa­men­te cha­mo “o meu esti­lo” ao mis­tu­rar peças de desig­ners por­tu­gue­ses que se esta­vam a afir­mar, mai­o­ri­ta­ri­a­men­te da Ana Sala­zar e José Antó­nio Tenen­te, com t‑shirts de gru­pos de Rock como os Gun N’ Roses e os Cure, ténis All Star e cola­res de péro­las da mãe. E lá dizia Karl Lager­feld “ O luxo é mis­tu­rar a sim­pli­ci­da­de de uma T‑Shirt com um ves­ti­do carís­si­mo”. Esta­va dado o mote para admi­rar o Kai­ser até hoje.

Até para os detra­to­res que não supor­ta­vam o seu humor áci­do e sem papas na lín­gua, a capa­ci­da­de de tra­ba­lho de Karl Lager­feld era admi­ra­da. Ele per­so­ni­fi­ca­va o meu lema de vida “a sor­te dá mui­to tra­ba­lho e exi­ge mui­ta per­se­ve­ran­ça e paci­ên­cia”. Res­pon­sá­vel por apre­sen­tar cer­ca de 10 cole­ções por ano, entre Alta Cos­tu­ra e pron­to-a-ves­tir das vári­as mar­cas de que era dire­tor artís­ti­co, o Impe­ra­dor da Moda era impa­rá­vel e um “con­trol fre­ak”, não dei­xan­do nada ao aca­so. Pelos seus olhos e mãos pas­sa­vam cada um dos mode­los do seu ate­li­er, ape­sar de con­tar com a cola­bo­ra­ção de equi­pas exce­ci­o­nais, sobre­tu­do da sua pri­mei­ra assis­ten­te, Vir­gi­nie Viard, já apon­ta­da pela Casa Cha­nel como sua natu­ral suces­so­ra. Karl Lager­feld fazia ques­tão de super­vi­si­o­nar todos os deta­lhes dos des­fi­les gran­di­o­sos que a sua men­te cri­a­va. “ Não vejo inte­res­se nenhum no lazer, exce­to ler, o meu tra­ba­lho é dese­nhar, se é que isso pode ser con­si­de­ra­do um tra­ba­lho, faço aqui­lo que sei fazer melhor”, afir­mou o mes­tre que tra­ba­lhou todos os dias da sua vida, até aos 85 anos. Mas, tal­vez ele tenha sido um daque­les pri­vi­le­gi­a­dos que por ado­ra­rem o que fazem, sen­tem que não tra­ba­lham um úni­co dia da sua vida.

Karl Lager­feld era um génio, tur­bu­len­to e polé­mi­co, como todos os que se des­ta­cam da mono­to­nia do “homem vul­gar”. Mui­to se devia ao fac­to de dizer aqui­lo que mui­tos pen­sam mas não têm a cora­gem de o expres­sar em voz alta. Ele até se con­si­de­ra­va “um ter­ra-a-ter­ra” só que “não des­ta ter­ra”, uma cari­ca­tu­ra dele pró­prio: “para mim o Car­na­val de Vene­za dura o ano intei­ro”. Como eu ado­ra­va este sen­ti­do de humor, só per­ten­ça daque­les que têm per­fei­ta cons­ci­ên­cia do quan­to geni­ais são, imu­nes a todas as cri­ti­cas e idei­as alhei­as: “Só me inte­res­sam as minhas pró­pri­as idei­as por­que quan­do expres­so uma ideia, já dei­tei para o cai­xo­te do lixo outras 60”, afir­mou.

Ter­ça-fei­ra, 19 de feve­rei­ro, nas­ceu um dia enso­la­ra­do e frio. As noti­fi­ca­ções da mor­te do mes­tre icó­ni­co cai­am no meu tele­mó­vel e no écran do com­pu­ta­dor como chu­va áci­da na minha men­te. Aban­do­nei o escri­tó­rio e fui ver o mar. Res­pi­rei fun­do. Vol­tei a sen­tir-me uma meni­na de doze anos, incom­pre­en­di­da no seu enor­me gos­to pela moda. Afi­nal, um ves­ti­do é só um ves­ti­do, não é um qua­dro de Picas­so, nem um tra­ta­do de filo­so­fia de Kier­ke­ga­ard, ou um ver­so de Sha­kes­pe­a­re… Cho­rei e sor­ri ao mes­mo tem­po. Pas­sa­dos 40 anos não mudei nada. A tris­te­za pela mor­te do Kai­ser, cri­a­dor, desig­ner, fotó­gra­fo, rea­li­za­dor de cine­ma, cari­ca­tu­ris­ta… é pre­ci­sa­men­te a mes­ma que sen­ti quan­do sou­be que Mada­me Coco Cha­nel por ter mor­ri­do não mais pode­ria dese­nhar aque­les sober­bos mode­los tam­bém incom­pre­en­di­dos no iní­cio, até pelas pró­pri­as fran­ce­sas. O mes­mo eri­çar dos pelos dos bra­ços, a mes­ma sen­sa­ção de amar­go de boca e os olhos rasos de água do mar, esse mar que sem­pre me acom­pa­nha nas dores de alma. Por­que, afi­nal, um casa­co Cha­nel não é só um casa­co, como uma car­tei­ra Cha­nel não é só uma car­tei­ra. São um lega­do à His­tó­ria da Arte e da Moda. São uma heran­ça que só pos­suí­mos para pas­sar às gera­ções seguin­tes. Por­que tor­nam a mor­ta­li­da­de imor­tal. Não espe­ro que enten­dam. Até por­que nun­ca vou poder com­prar uma peça Cha­nel. Como não vou poder ter um Van Gogh na sala. Mas se pudes­se ter um bla­zer Cha­nel, cer­ta­men­te o com­bi­na­ria com uma t‑shirt bran­ca e um ténis. Num luxo des­com­pro­me­ti­do. Por­que afi­nal o úni­co luxo aces­sí­vel a todos é mes­mo o bom gos­to e o bom gos­to era a razão de ser de Karl Lager­feld. E o esti­lo, não esque­cer o esti­lo. O esti­lo dos bons valo­res como ele tão bem defi­nia.

Adeus Karl. Adeus Coco. Até já moda. Olá esti­lo. Para sem­pre.

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Paula Lamares

Depois fui amanhecendo, um fiozinho de mim por ali afora, dias adentro de varanda ao colo. Até que comecei a pegar aos poucos na rédea do enfado, a realidade menos pegajosa e morna, devagarinho a vestir-me de mim:... Acendia-se as primeiras luzes na serra. Se me desse na veneta hoje voltaria a escrever. Desde então não paro de nascer.
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